segunda-feira, 5 de abril de 2010

"O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais’, diz Boff

“O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais. Do Vaticano II (1962-1965) aprendemos que cumpre identificar nos sinais uma interpelação que Deus nos quer transmitir. Vejo que a interpelação vai nesta linha: está na hora de a Igreja romano-católica fazer o que todas as demais Igrejas fizeram: abolir o celibato imposto por lei eclesiástica e liberá-lo para aqueles que veem sentido nele e conseguem vivê-lo com jovialidade e leveza de espírito”. A opinião é do teólogo Leonardo Boff em artigo no jornal O Estado de S.Paulo, 04-04-2010.

Eis o artigo.

O levantamento dos padres pedófilos em quase todos os países da cristandade católica está ainda em curso, revelando a extensão desse crime que tantos prejuízos tem provocado em suas vítimas. É pouco dizer que a pedofilia envergonha a Igreja. É pior. Ela representa uma dívida impagável com aqueles menores que foram abusados sob a capa da credibilidade e da confiança que a função de padre encarna. A tese central do papa Ratzinger que cansei de ouvir em suas conferências e aulas vai por água abaixo.

Para ele, o importante não é que a Igreja seja numerosa. Basta que seja um "pequeno rebanho", constituído de pessoas altamente espiritualizadas. Ela é um pequeno "mundo reconciliado" que representa os outros e toda a humanidade. Ocorre que dentro desse pequeno rebanho há pecadores criminosos e é tudo menos um "mundo reconciliado". Ela tem que humildemente acolher o que dizia a tradição: a Igreja é santa e pecadora e é uma "casta meretriz". Não é suficiente ser Igreja. Ela tem que trilhar, como todos, pelo caminho do bem e integrar as pulsões da sexualidade que já possui 1 bilhão de anos de memória biológica para que seja expressão de enternecimento e de amor e não de obsessão e de violência contra menores.

O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais. Do Vaticano II (1962-1965) aprendemos que cumpre identificar nos sinais uma interpelação que Deus nos quer transmitir. Vejo que a interpelação vai nesta linha: está na hora de a Igreja romano-católica fazer o que todas as demais Igrejas fizeram: abolir o celibato imposto por lei eclesiástica e liberá-lo para aqueles que veem sentido nele e conseguem vivê-lo com jovialidade e leveza de espírito. Mas essa lição não está sendo tirada pelas autoridades romanas. Ao contrário, apesar dos escândalos, reafirmam o celibato com mais vigor.

Sabemos como é insuficiente a educação para a integração da sexualidade no processo de formação dos padres. Ela é feita longe do contato normal com as mulheres, o que produz certa atrofia na construção da identidade. As ciências da psique nos deixaram claro: o homem só amadurece sob o olhar da mulher e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher são recíprocos e complementares. O sexo genético-celular mostrou que a diferença entre homem e mulher, em termos de cromossomos, se reduz a apenas um cromossomo. A mulher possui dois cromossomos XX e o homem, um cromossomo X e outro Y. Donde se depreende que o sexo-base é o feminino (XX), sendo o masculino (XY) uma diferenciação dele. Não há, pois, um sexo absoluto, mas apenas um dominante. Em cada ser humano, homem e mulher, existe "um segundo sexo". Na integração do animus e da anima, vale dizer, das dimensões de feminino e de masculino presentes em cada um, se gesta a maturidade sexual.

Essa integração vem sendo dificultada pela ausência de uma das partes, a mulher, que é substituída pela imaginação e pelos fantasmas que, se não forem submetidos à disciplina, podem gerar distorções. O que se ensinava nos seminários não é sem sabedoria: quem controla a imaginação, controla a sexualidade. Em grande parte, assim é. Mas a sexualidade possui um vigor vulcânico. Paul Ricoeur, que muito refletiu filosoficamente sobre a teoria psicanalítica de Freud, reconhece que a sexualidade escapa ao controle da razão, das normas morais e das leis. Ela vive entre a lei do dia, em que valem as regras e os comportamentos estatuídos, e a lei da noite, em que funciona a pulsão, a força da vitalidade espontânea. Só um projeto ético e humanístico de vida (o que queremos ser) pode dar direção a essa dialética e transformá-la em força de humanização e de relações fecundas.

Nesse processo o celibato não é excluído. Ele é uma das opções possíveis que eu defendo. Mas o celibato não pode nascer de uma carência de amor, ao contrário: deve resultar de uma superabundância de amor a Deus que transborda para os que estão a sua volta.

Por que a Igreja romano-católica não dá um passo e abole a lei do celibato? Porque é contraditório com a sua estrutura. Ela é uma instituição total, autoritária, patriarcal e altamente hierarquizada. Ela abarca a pessoa do nascimento à morte. O poder conferido ao papa, para uma consciência cidadã mínima, é simplesmente tirânico. O cânon 331 é claro. Trata-se de um poder "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal". Se riscarmos a palavra papa e colocarmos Deus, funciona perfeitamente. Por isso se dizia: "O papa é o deus menor na terra". Uma Igreja que coloca o poder em seu centro fecha as portas e as janelas para o amor, a ternura e o sentido da compaixão. O celibatário é funcional para esse tipo de Igreja.

O celibato implica cooptar o sacerdote totalmente a serviço, não da humanidade, mas desse tipo de Igreja. Ele só deverá amar a Igreja. Enquanto essa lógica perdurar, não esperemos que a lei do celibato seja abolida. Ele é muito cômoda para ela.

Mas como fica o sonho de Jesus de uma comunidade fraterna e igualitária? Bem, isso é um outro problema, talvez o principal.

Fonte: unisinos.com.br

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Fim dos ímpios - (Legendado) End Of The Wicked - Helen Ukpabio

Um dos vídeos produzidos na Nigéria que justificam a crueldade com as crianças denominadas bruxas. O pior de tudo é que o mesmo é produzido por uma pastora que alega ter poderes para libertar as pessoas, é claro que tem grana envolvida na história. Por isso, precisamos ensinar o evangelho puro, que liberta pela verdade, que dá autonomia às pessoas, e que respeita e ama as crianças.

Angolanos culpam as crianças 'feiticeiras' pelas tragédias

Mais uma matéria sobre a questão da demonização das crianças na África.
Já vivemos no Brasil a paranóia em relação às pessoas tidas como satanistas; por isso temidas e evitadas. Será que estes pastores espertalhões também divulgarão estes conceitos aquí? Há espaço, desde o momento em que grande parte dos pastores hoje responsabilizam os demônios por tudo, o que é claro sincretismo religioso.

Crianças Bruxas: Acusadas em Nome de Jesus - legendado

O clímax do sincretismo; resultado de um cristianismo sem conhecimento, sem compaixão, afundado em uma mistura que constrói cristãos amedrontados e paranóicos, sempre dependentes de "ungidos" de Deus para livrá-los do poder do diabo que está em toda parte.
Pastores que enriquecem às custas de gente ignorante e humilde, pois alegam possuir o poder de libertar do mal, mas só se forem recompensados financeiramente o farão..
São os piores feiticeiros.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Panorama para 2010

Democracia à brasileira

Dom Robinson Cavalcanti

Esse é um país original. Após a Independência, saímos de uma Monarquia Absolutista para uma Monarquia Constitucional por um ato absolutista: D. Pedro I fecha a Assembleia Constituinte, e como “Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil” nos impõe a Constituição de 1824. O Imperador hereditário, que nomeava os membros do Conselho de Estado, o Presidente do Conselho de Ministro e os Governadores das Províncias. Eleição indireta para o Senado. O voto era aberto, e dele participava apenas 3% da população: os varões, brancos, proprietários e católicos romanos.

Com o golpe militar republicano (pois o Partido Republicano nunca passou de 5% dos eleitores), saiu a exigência de propriedade ou renda (Lei da Mandioca) e entrou a exigência de alfabetização, visando excluir os negros libertos. Resultado: na Primeira República caímos de 3% para 1% da população que tinha direito ao voto, o que incluía apenas as mulheres empresárias ou detentoras de diplomas de nível superior, que dizer, nenhuma. O voto continuava aberto e os Partidos Republicanos estaduais funcionavam como um partido único ganhando todas as eleições.

Vargas foi eleito indiretamente em 1934, e a nova Constituição cria o voto secreto, mas mantém a exigência de alfabetização em um país de analfabetos. Ditadura e Constituição imposta em 1937 com o fechamento de todos os partidos e suspensão de todas as eleições. Vem a “redemocratização” e a Constituição de 1946, dependendo de regulamentações de quem não queria regulamentar.

País ainda de maioria rural, de domínio dos “coronéis”, do voto comprado por um corte de chita, ou sob ameaças. Domínio das elites com povo manipulado (populismo). Com a urbanização e a industrialização, com o povo pressionando por reformas, se levanta o fantasma da "ameaça comunista", e tome 29 anos de Ditadura Militar, com eleições coreográficas e esvaziadas para os dois partidos consentidos, desde que apenas um (ARENA) vencesse sempre.

Puxaram o tapete das "diretas já", fizeram uma Constituinte de arremedo, no lugar de se regulamentar mais de 80 artigos da Constituição de 1988, ela foi desfigurada pelas PECs, especialmente com FHC, que aprofunda o desmonte da legislação trabalhista.

Periodicamente somos chamados a escolher entre aqueles que foram escolhidos para que nós escolhêssemos. A soberania nacional e a soberania popular foram esvaziadas, e a grande imprensa manipula a opinião pública. O Congresso Nacional é uma pirâmide invertida da pirâmide da sociedade brasileira: quanto maior for o segmento social da base menor o número de representantes; quando menor o grupo no topo, maior a bancada.

O poder econômico controla o poder político, o resto é marketing, retórica e coreografia.

Na Democracia à Brasileira bem cabem as palavras do saudoso Florestan Fernandes: “Essa é uma burguesia lúcida, consciente, que montou um projeto de contrarrevolução permanente para evitar qualquer réstia de poder do povo".

A crescente população protestante ou continua alienada “vendo a banda passar" ou já está por dentro dos esquemas, salvo as clássicas "honrosas (e queimadas) exceções".

2010 não está sinalizando nenhuma alteração nesse estado de coisas!

Robinson Cavalcanti, bispo anglicano.