Coleção de textos cristãos e artigos diversos contextualizando as verdades bíblicas para as realidades da nossa sociedade,visando oferecer respostas ou criar questionamentos
terça-feira, 8 de junho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
A oração como uma identidade do cristão
No evangelho de Lucas, capítulo 11, temos a descrição de um importante momento na relação de Jesus com os seus discípulos. Jesus estava orando "em certo lugar" e seus discípulos, provavelmente, estavam próximos o suficiente para perceber sua atividade. Ao terminar o seu momento devocional, ele é imediatamente abordado por um dos seus observadores, que lhe faz um pedido bem específico; "Senhor, ensina-nos a orar" (v.1).
Ele toma a frente do grupo e pede algo que ele acha ser importante para todos. Eles conviviam com Jesus diariamente, viam seu poder manifestado, as maravilhas acontecendo no meio das multidões que o seguiam, a maneira como os poderes do mal eram confrontados com autoridade e discrição, como as doenças eram expelidas dos corpos com paixão e misericórdia e como os excluídos eram aceitos e amados de forma tão diferente da religiosidade que haviam conhecido no passado.
De alguma forma, sem muita dificuldade, puderam perceber que as orações constantes de Jesus (públicas, secretas, nos montes, às refeições etc.) tinham um elo com as coisas que aconteciam. Ele mesmo já havia agradecido publicamente ao Pai por responder às suas orações dizendo: "Eu sei que sempre me ouves".
No imaginário dos seus seguidores, começava a despontar a idéia de que, se orassem como ele, teriam as respostas de oração que ele vivenciou.
A oração estava ligada a identidade do Mestre. Ele era porque orava, ele orava porque ele era.
No pedido do discípulo também estava a questão da identidade: "Ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos". Nesta abordagem podemos perceber que os discípulos de João foram doutrinados nesta questão; quem os conheceu percebia um modelo de oração específico que os identificava como discípulos do profeta do arrependimento. Os conteúdos dos seus pedidos estavam carregados da maneira de pensar, de agir, dos sonhos, das utopias, das revelação específicas do seu líder. Agora os discípulos de Jesus queriam que suas orações tivessem a identidade de seu movimento e de seus sonhos e expectativas pessoais. Querem orar como Jesus orou, manifestando em suas petições, as marcas do reino no qual creram e estavam dedicando as suas vidas.
Jesus prontamente atende ao pedido do seu discípulo, colocando para todos eles, e para nós, os conteúdos da verdadeira oração que, sem dúvida, é a marca do reino de Deus, que foi aproximado de nós, a partir dele. É a oração para nós, é o "Pai Nosso".
No passado, os grupos religiosos podiam ser reconhecidos por meio de suas práticas devocionais. A maneira como oravam os identificava como fariseus, saduceus, discípulos de João, essênios etc. Podemos ser identificados hoje pela maneira como oramos? As pessoas podem observar nossas vidas e identificar influências positivas, como verdadeiros frutos produzidos em favor dos outros? Temos esta identidade espiritual?
Podemos ser identificados pelos resultados produzidos na sociedade, a partir dos momentos em que celebramos a Deus, de forma pessoal ou em grupo, de tal maneira que percebam os elos que criamos com o sagrado? E ao efetuarem estas associações, as pessoas nos abordam para que as ensinemos como podemos ter as mesmas experiências?
Jesus caminhou com seus discípulos, manifestou a sua identidade e a do Pai, podendo dizer "Eu e o Pai somos um". Nele aconteceu a revelação mais explícita de Deus. O transcendente ficou transparente. Fazia parte de sua natureza o convívio com aquele com o enviou, por meio da oração.
Sua vontade é que o imitemos, segui-lo é seu projeto para todos, e, ao fazê-lo, seu Espírito vem habitar e orar em nós, e quem tiver olhos para ver perceberá e pedirá "ensina-nos a orar".
Luciano Oliveira
Ele toma a frente do grupo e pede algo que ele acha ser importante para todos. Eles conviviam com Jesus diariamente, viam seu poder manifestado, as maravilhas acontecendo no meio das multidões que o seguiam, a maneira como os poderes do mal eram confrontados com autoridade e discrição, como as doenças eram expelidas dos corpos com paixão e misericórdia e como os excluídos eram aceitos e amados de forma tão diferente da religiosidade que haviam conhecido no passado.
De alguma forma, sem muita dificuldade, puderam perceber que as orações constantes de Jesus (públicas, secretas, nos montes, às refeições etc.) tinham um elo com as coisas que aconteciam. Ele mesmo já havia agradecido publicamente ao Pai por responder às suas orações dizendo: "Eu sei que sempre me ouves".
No imaginário dos seus seguidores, começava a despontar a idéia de que, se orassem como ele, teriam as respostas de oração que ele vivenciou.
A oração estava ligada a identidade do Mestre. Ele era porque orava, ele orava porque ele era.
No pedido do discípulo também estava a questão da identidade: "Ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos". Nesta abordagem podemos perceber que os discípulos de João foram doutrinados nesta questão; quem os conheceu percebia um modelo de oração específico que os identificava como discípulos do profeta do arrependimento. Os conteúdos dos seus pedidos estavam carregados da maneira de pensar, de agir, dos sonhos, das utopias, das revelação específicas do seu líder. Agora os discípulos de Jesus queriam que suas orações tivessem a identidade de seu movimento e de seus sonhos e expectativas pessoais. Querem orar como Jesus orou, manifestando em suas petições, as marcas do reino no qual creram e estavam dedicando as suas vidas.
Jesus prontamente atende ao pedido do seu discípulo, colocando para todos eles, e para nós, os conteúdos da verdadeira oração que, sem dúvida, é a marca do reino de Deus, que foi aproximado de nós, a partir dele. É a oração para nós, é o "Pai Nosso".
No passado, os grupos religiosos podiam ser reconhecidos por meio de suas práticas devocionais. A maneira como oravam os identificava como fariseus, saduceus, discípulos de João, essênios etc. Podemos ser identificados hoje pela maneira como oramos? As pessoas podem observar nossas vidas e identificar influências positivas, como verdadeiros frutos produzidos em favor dos outros? Temos esta identidade espiritual?
Podemos ser identificados pelos resultados produzidos na sociedade, a partir dos momentos em que celebramos a Deus, de forma pessoal ou em grupo, de tal maneira que percebam os elos que criamos com o sagrado? E ao efetuarem estas associações, as pessoas nos abordam para que as ensinemos como podemos ter as mesmas experiências?
Jesus caminhou com seus discípulos, manifestou a sua identidade e a do Pai, podendo dizer "Eu e o Pai somos um". Nele aconteceu a revelação mais explícita de Deus. O transcendente ficou transparente. Fazia parte de sua natureza o convívio com aquele com o enviou, por meio da oração.
Sua vontade é que o imitemos, segui-lo é seu projeto para todos, e, ao fazê-lo, seu Espírito vem habitar e orar em nós, e quem tiver olhos para ver perceberá e pedirá "ensina-nos a orar".
Luciano Oliveira
domingo, 30 de maio de 2010
Mudar para acolher verdades
Ricardo Gondim
Os sistemas estáticos são mortos; as ideias engessadas são dogmas intolerantes; as instituições inflexíveis são tiranias. A vida acontece na transformação. Tudo flui. O tempo sangra como hemorragia porque vaza a existência por um ralo cruel. Mas não há como estancar o escoamento das horas.
Mudar é aceitar a inexorabilidade do tempo; é reconhecer a impossibilidade de lançar ganchos, estacionar, e recusar o imperativo divino: “Manda que o povo marche”.
Maquiavel afirmou:
Falar em tese, pensar a partir de absolutos, reduz a linguagem religiosa ao teorismo da torre de marfim. Acontece que a experiência de Deus na história é de inquietação e não de apatia. A verdade, se pretende ser verdade, deve ligar-se à vida e não ao argumento que satisfaz uma lógica interna.
Hannah Arendt acertou ao afirmar que milagre é a interrupção de qualquer processo automatizado. Mudar é alterar o que outrora se considerava inamovível; é reverter o irreversível. Profetas não encalacram futuro dentro de suas previsões, mas o libertam para infinitas possibilidades. O futuro se bifurca em trilhões de esquinas a partir das decisões livres de homens e mulheres. Os profetas apenas alinhavam o porvir para depois ensinar os pontos que firmariam as costuras.
Mudanças comportamentais são estimuladas entre religiosos, mas mudanças conceituais são vistas como anátemas. Jesus, logo depois de ter dito aos discípulos que era a Verdade (Jo 14.6), prometeu que o outro Consolador, o Espírito Santo, os conduziria a mais Verdade.
Jesus tinha muitas coisas para ensinar, mas os seus seguidores mais próximos ainda não estavam prontos para suportar: “Ele vos guiará a toda Verdade” (Jo 16.13). Eles deveriam manter o coração ensinável, a mente flexível e o coração sensível porque o caminho para a Verdade não se exaurira e nem se esgotaria tão cedo.
Mudar, portanto, significa se abrir para verdades que outrora não encontravam porto na interioridade. Mudar é admitir que nunca estamos totalmente prontos para entender tudo. Mudar é aprender a deixar para trás o que outrora nos encantava para absorver o que os olhos nunca viram, os ouvidos nunca ouviram e nunca o coração humano intuiu. Mudar é abrir mão do que antigamente fazia sentido para que resplandeçam novos lampejos de sabedoria, lucidez e esclarecimento.
Soli Deo Gloria.
fonte: Ricardo Gondim
Mudar é aceitar a inexorabilidade do tempo; é reconhecer a impossibilidade de lançar ganchos, estacionar, e recusar o imperativo divino: “Manda que o povo marche”.
Maquiavel afirmou:
“Não há empresa (tarefa) mais difícil de conduzir, mais incerta quanto ao êxito e mais perigosa, do que a de introduzir novas instituições. Aquele que nisso se empenha tem por inimigos todos quantos lucravam com as instituições antigas, e só encontra tíbios defensores naqueles aos quais as novas se aproveitam”.
Vem de José Comblin a expressão”teologia cínica”. Teologia cínica é a que sistematiza verdades sem criticá-las ou que repete conceitos cristalizados pelo senso comum. Para Comblin, o sentido de “cínico” está conectado ao foco do pensar: quando a defesa do argumento ou do conceito é priorizada sem sensibilidade aos indivíduos.Falar em tese, pensar a partir de absolutos, reduz a linguagem religiosa ao teorismo da torre de marfim. Acontece que a experiência de Deus na história é de inquietação e não de apatia. A verdade, se pretende ser verdade, deve ligar-se à vida e não ao argumento que satisfaz uma lógica interna.
Hannah Arendt acertou ao afirmar que milagre é a interrupção de qualquer processo automatizado. Mudar é alterar o que outrora se considerava inamovível; é reverter o irreversível. Profetas não encalacram futuro dentro de suas previsões, mas o libertam para infinitas possibilidades. O futuro se bifurca em trilhões de esquinas a partir das decisões livres de homens e mulheres. Os profetas apenas alinhavam o porvir para depois ensinar os pontos que firmariam as costuras.
Mudanças comportamentais são estimuladas entre religiosos, mas mudanças conceituais são vistas como anátemas. Jesus, logo depois de ter dito aos discípulos que era a Verdade (Jo 14.6), prometeu que o outro Consolador, o Espírito Santo, os conduziria a mais Verdade.
Jesus tinha muitas coisas para ensinar, mas os seus seguidores mais próximos ainda não estavam prontos para suportar: “Ele vos guiará a toda Verdade” (Jo 16.13). Eles deveriam manter o coração ensinável, a mente flexível e o coração sensível porque o caminho para a Verdade não se exaurira e nem se esgotaria tão cedo.
Mudar, portanto, significa se abrir para verdades que outrora não encontravam porto na interioridade. Mudar é admitir que nunca estamos totalmente prontos para entender tudo. Mudar é aprender a deixar para trás o que outrora nos encantava para absorver o que os olhos nunca viram, os ouvidos nunca ouviram e nunca o coração humano intuiu. Mudar é abrir mão do que antigamente fazia sentido para que resplandeçam novos lampejos de sabedoria, lucidez e esclarecimento.
Soli Deo Gloria.
fonte: Ricardo Gondim
quinta-feira, 8 de abril de 2010
segunda-feira, 5 de abril de 2010
"O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais’, diz Boff
“O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais. Do Vaticano II (1962-1965) aprendemos que cumpre identificar nos sinais uma interpelação que Deus nos quer transmitir. Vejo que a interpelação vai nesta linha: está na hora de a Igreja romano-católica fazer o que todas as demais Igrejas fizeram: abolir o celibato imposto por lei eclesiástica e liberá-lo para aqueles que veem sentido nele e conseguem vivê-lo com jovialidade e leveza de espírito”. A opinião é do teólogo Leonardo Boff em artigo no jornal O Estado de S.Paulo, 04-04-2010.
Eis o artigo.
O levantamento dos padres pedófilos em quase todos os países da cristandade católica está ainda em curso, revelando a extensão desse crime que tantos prejuízos tem provocado em suas vítimas. É pouco dizer que a pedofilia envergonha a Igreja. É pior. Ela representa uma dívida impagável com aqueles menores que foram abusados sob a capa da credibilidade e da confiança que a função de padre encarna. A tese central do papa Ratzinger que cansei de ouvir em suas conferências e aulas vai por água abaixo.
Para ele, o importante não é que a Igreja seja numerosa. Basta que seja um "pequeno rebanho", constituído de pessoas altamente espiritualizadas. Ela é um pequeno "mundo reconciliado" que representa os outros e toda a humanidade. Ocorre que dentro desse pequeno rebanho há pecadores criminosos e é tudo menos um "mundo reconciliado". Ela tem que humildemente acolher o que dizia a tradição: a Igreja é santa e pecadora e é uma "casta meretriz". Não é suficiente ser Igreja. Ela tem que trilhar, como todos, pelo caminho do bem e integrar as pulsões da sexualidade que já possui 1 bilhão de anos de memória biológica para que seja expressão de enternecimento e de amor e não de obsessão e de violência contra menores.
O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais. Do Vaticano II (1962-1965) aprendemos que cumpre identificar nos sinais uma interpelação que Deus nos quer transmitir. Vejo que a interpelação vai nesta linha: está na hora de a Igreja romano-católica fazer o que todas as demais Igrejas fizeram: abolir o celibato imposto por lei eclesiástica e liberá-lo para aqueles que veem sentido nele e conseguem vivê-lo com jovialidade e leveza de espírito. Mas essa lição não está sendo tirada pelas autoridades romanas. Ao contrário, apesar dos escândalos, reafirmam o celibato com mais vigor.
Sabemos como é insuficiente a educação para a integração da sexualidade no processo de formação dos padres. Ela é feita longe do contato normal com as mulheres, o que produz certa atrofia na construção da identidade. As ciências da psique nos deixaram claro: o homem só amadurece sob o olhar da mulher e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher são recíprocos e complementares. O sexo genético-celular mostrou que a diferença entre homem e mulher, em termos de cromossomos, se reduz a apenas um cromossomo. A mulher possui dois cromossomos XX e o homem, um cromossomo X e outro Y. Donde se depreende que o sexo-base é o feminino (XX), sendo o masculino (XY) uma diferenciação dele. Não há, pois, um sexo absoluto, mas apenas um dominante. Em cada ser humano, homem e mulher, existe "um segundo sexo". Na integração do animus e da anima, vale dizer, das dimensões de feminino e de masculino presentes em cada um, se gesta a maturidade sexual.
Essa integração vem sendo dificultada pela ausência de uma das partes, a mulher, que é substituída pela imaginação e pelos fantasmas que, se não forem submetidos à disciplina, podem gerar distorções. O que se ensinava nos seminários não é sem sabedoria: quem controla a imaginação, controla a sexualidade. Em grande parte, assim é. Mas a sexualidade possui um vigor vulcânico. Paul Ricoeur, que muito refletiu filosoficamente sobre a teoria psicanalítica de Freud, reconhece que a sexualidade escapa ao controle da razão, das normas morais e das leis. Ela vive entre a lei do dia, em que valem as regras e os comportamentos estatuídos, e a lei da noite, em que funciona a pulsão, a força da vitalidade espontânea. Só um projeto ético e humanístico de vida (o que queremos ser) pode dar direção a essa dialética e transformá-la em força de humanização e de relações fecundas.
Nesse processo o celibato não é excluído. Ele é uma das opções possíveis que eu defendo. Mas o celibato não pode nascer de uma carência de amor, ao contrário: deve resultar de uma superabundância de amor a Deus que transborda para os que estão a sua volta.
Por que a Igreja romano-católica não dá um passo e abole a lei do celibato? Porque é contraditório com a sua estrutura. Ela é uma instituição total, autoritária, patriarcal e altamente hierarquizada. Ela abarca a pessoa do nascimento à morte. O poder conferido ao papa, para uma consciência cidadã mínima, é simplesmente tirânico. O cânon 331 é claro. Trata-se de um poder "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal". Se riscarmos a palavra papa e colocarmos Deus, funciona perfeitamente. Por isso se dizia: "O papa é o deus menor na terra". Uma Igreja que coloca o poder em seu centro fecha as portas e as janelas para o amor, a ternura e o sentido da compaixão. O celibatário é funcional para esse tipo de Igreja.
O celibato implica cooptar o sacerdote totalmente a serviço, não da humanidade, mas desse tipo de Igreja. Ele só deverá amar a Igreja. Enquanto essa lógica perdurar, não esperemos que a lei do celibato seja abolida. Ele é muito cômoda para ela.
Mas como fica o sonho de Jesus de uma comunidade fraterna e igualitária? Bem, isso é um outro problema, talvez o principal.
Fonte: unisinos.com.br
Eis o artigo.
O levantamento dos padres pedófilos em quase todos os países da cristandade católica está ainda em curso, revelando a extensão desse crime que tantos prejuízos tem provocado em suas vítimas. É pouco dizer que a pedofilia envergonha a Igreja. É pior. Ela representa uma dívida impagável com aqueles menores que foram abusados sob a capa da credibilidade e da confiança que a função de padre encarna. A tese central do papa Ratzinger que cansei de ouvir em suas conferências e aulas vai por água abaixo.
Para ele, o importante não é que a Igreja seja numerosa. Basta que seja um "pequeno rebanho", constituído de pessoas altamente espiritualizadas. Ela é um pequeno "mundo reconciliado" que representa os outros e toda a humanidade. Ocorre que dentro desse pequeno rebanho há pecadores criminosos e é tudo menos um "mundo reconciliado". Ela tem que humildemente acolher o que dizia a tradição: a Igreja é santa e pecadora e é uma "casta meretriz". Não é suficiente ser Igreja. Ela tem que trilhar, como todos, pelo caminho do bem e integrar as pulsões da sexualidade que já possui 1 bilhão de anos de memória biológica para que seja expressão de enternecimento e de amor e não de obsessão e de violência contra menores.
O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais. Do Vaticano II (1962-1965) aprendemos que cumpre identificar nos sinais uma interpelação que Deus nos quer transmitir. Vejo que a interpelação vai nesta linha: está na hora de a Igreja romano-católica fazer o que todas as demais Igrejas fizeram: abolir o celibato imposto por lei eclesiástica e liberá-lo para aqueles que veem sentido nele e conseguem vivê-lo com jovialidade e leveza de espírito. Mas essa lição não está sendo tirada pelas autoridades romanas. Ao contrário, apesar dos escândalos, reafirmam o celibato com mais vigor.
Sabemos como é insuficiente a educação para a integração da sexualidade no processo de formação dos padres. Ela é feita longe do contato normal com as mulheres, o que produz certa atrofia na construção da identidade. As ciências da psique nos deixaram claro: o homem só amadurece sob o olhar da mulher e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher são recíprocos e complementares. O sexo genético-celular mostrou que a diferença entre homem e mulher, em termos de cromossomos, se reduz a apenas um cromossomo. A mulher possui dois cromossomos XX e o homem, um cromossomo X e outro Y. Donde se depreende que o sexo-base é o feminino (XX), sendo o masculino (XY) uma diferenciação dele. Não há, pois, um sexo absoluto, mas apenas um dominante. Em cada ser humano, homem e mulher, existe "um segundo sexo". Na integração do animus e da anima, vale dizer, das dimensões de feminino e de masculino presentes em cada um, se gesta a maturidade sexual.
Essa integração vem sendo dificultada pela ausência de uma das partes, a mulher, que é substituída pela imaginação e pelos fantasmas que, se não forem submetidos à disciplina, podem gerar distorções. O que se ensinava nos seminários não é sem sabedoria: quem controla a imaginação, controla a sexualidade. Em grande parte, assim é. Mas a sexualidade possui um vigor vulcânico. Paul Ricoeur, que muito refletiu filosoficamente sobre a teoria psicanalítica de Freud, reconhece que a sexualidade escapa ao controle da razão, das normas morais e das leis. Ela vive entre a lei do dia, em que valem as regras e os comportamentos estatuídos, e a lei da noite, em que funciona a pulsão, a força da vitalidade espontânea. Só um projeto ético e humanístico de vida (o que queremos ser) pode dar direção a essa dialética e transformá-la em força de humanização e de relações fecundas.
Nesse processo o celibato não é excluído. Ele é uma das opções possíveis que eu defendo. Mas o celibato não pode nascer de uma carência de amor, ao contrário: deve resultar de uma superabundância de amor a Deus que transborda para os que estão a sua volta.
Por que a Igreja romano-católica não dá um passo e abole a lei do celibato? Porque é contraditório com a sua estrutura. Ela é uma instituição total, autoritária, patriarcal e altamente hierarquizada. Ela abarca a pessoa do nascimento à morte. O poder conferido ao papa, para uma consciência cidadã mínima, é simplesmente tirânico. O cânon 331 é claro. Trata-se de um poder "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal". Se riscarmos a palavra papa e colocarmos Deus, funciona perfeitamente. Por isso se dizia: "O papa é o deus menor na terra". Uma Igreja que coloca o poder em seu centro fecha as portas e as janelas para o amor, a ternura e o sentido da compaixão. O celibatário é funcional para esse tipo de Igreja.
O celibato implica cooptar o sacerdote totalmente a serviço, não da humanidade, mas desse tipo de Igreja. Ele só deverá amar a Igreja. Enquanto essa lógica perdurar, não esperemos que a lei do celibato seja abolida. Ele é muito cômoda para ela.
Mas como fica o sonho de Jesus de uma comunidade fraterna e igualitária? Bem, isso é um outro problema, talvez o principal.
Fonte: unisinos.com.br
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Assinar:
Postagens (Atom)