terça-feira, 3 de novembro de 2009

Legislando em causa própria


Projeto da ficha limpa enfrenta resistência


O projeto de lei de iniciativa popular nº 518/09, que pode ser levado a votação no Congresso e estabelece a ficha limpa como regra para registro de candidatura, enfrentará resistência entre os parlamentares.
A reportagem é de Ricardo Brandt e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 03-11-2009.
Um mês após ser entregue na Câmara, a Mesa Diretora ainda não nomeou um relator. A proposta foi anexada ao projeto 168/93, que também trata de casos de inelegibilidades e já recebeu parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça quanto à sua constitucionalidade - queimando assim, etapas na tramitação interna.
Mas para que comece a efetivamente ser analisado pela Casa, precisa ter nomeado um relator pela Mesa e conseguir romper a rejeição que enfrenta por prejudicar diretamente 41% dos deputados atuais.
Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que encabeçou a coleta de assinaturas, tenta pressionar os parlamentares para que o maior número deles subscreva o projeto - 31 já o assinaram. Para isso, a ONG, que agrega outras 41 entidades, lançou a campanha "Mande um recado aos parlamentares!", em que orienta os eleitores a mandarem e-mails para os deputados cobrando a aprovação da lei da ficha limpa.
O tema já foi debatido no Supremo Tribunal Federal (STF) nas eleições municipais de 2008, quando a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) preparou uma lista de candidatos com problemas na Justiça. Após sete horas e meia de sessão, 9 dos 11 ministros da corte votaram contra uma ação protocolada pela AMB, que pedia que os candidatos condenados em primeira instância fossem impedidos de disputar as eleições.
A decisão manteve a validade da Lei de Inelegibilidades, que estipula que apenas candidatos condenados em última instância poderão ser impedidos de disputar as eleições.
"Antes mesmo de ser levado à Câmara dos Deputados, soubemos que havia parlamentares trabalhando contra a proposta. O projeto foi protocolado e ainda está sem relator, que será escolhido por um ato do presidente da Casa, Michel Temer. Já solicitamos uma audiência com ele. Não vamos deixar que engavetem a proposta", afirmou Marlon Reis, um dos coordenadores do MCCE.
A primeira vitória da sociedade civil no combate à corrupção ocorreu há 10 anos. No dia 29 de outubro do ano de 1999, organizações sociais conseguiram levar ao Congresso a proposta que se tornaria a primeira lei de iniciativa popular. A Lei 9.840/99, que criou regras de combate à compra de votos e ao uso eleitoreiro da máquina administrativa, já serviu como base para a cassação de mais de 600 políticos, segundo levantamento doMCCE. Agora, as entidades querem criar critérios mais rígidos para que alguém possa se candidatar.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27154

O "Cristo Cósmico" de Chardin e a Ciência

Teologia pública
 
François Euvé:A humanidade como o centro da revelação

Físico e teólogo jesuíta analisa presença de Deus no cosmos e na humanidade, apoiado nas ideias de Teilhard de Chardin. Com o desafio da ecologia, precisamos considerar que a vida cristã está encarnada no cosmos, na humanidade, acentua
“Deus não está presente no cosmos diretamente, mas através da humanidade. A humanidade tem uma responsabilidade, e isso é mais evidente na Terra e menos evidente no cosmos em geral, mas a humanidade como princípio é realmente o centro da revelação”. A afirmação é do físico e teólogo jesuítaFrançois Euvé, na entrevista exclusiva que concedeu, pessoalmente, à IHU On-Line, por ocasião de sua vinda à Unisinos como conferencista do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. Ele continua: “Agora, especialmente por causa do desafio da ecologia, temos que levar em consideração que a vida cristã está encarnada no cosmos. Então um teólogo cristão não pode ignorar o que acontece no campo da ciência”. Esse é um dos motivos que faz crescer o interesse pela ciência entre os teólogos. Por outro lado, os cientistas são cada vez mais questionados, e há um movimento contrário, da ciência indo em direção à teologia, explica. Interessado na teologia da criação, em teologia fundamental e na relação entre as ciências naturais e a teologia, Euvé revela entusiasmo pela ideia de Cristo cósmico, desenvolvida por Teilhard de Chardin. Não se trata “de Cristo como redentor da humanidade, mas como redentor do cosmos em si”.
François Euvé é doutor em Teologia pelo Centro de Sèvres, onde leciona teologia dogmática e fundamental desde 1997, e é decano da Faculdade de Teologia dessa instituição. É diretor da Cátedra Teilhard de Chardin. Graduado em Física de Plasma pela Universidade Paris XI, entrou, logo após a conclusão do curso, para a Companhia de Jesus, em 1983. Foi ordenado sacerdote em 1989. De 1992 a 1995, ensinou Teologia no Instituto Saint-Thomas, em Moscou, na antiga União Soviética. De suas publicações, citamos Pensar a criação como jogo (São Paulo: Paulinas, 2006), Science, foi, sagesse. Faut-il parler de convergence? (Paris: L’Atelier, 2004 ) e Christianisme et nature (Paris: Vie chrétienne, 2004).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Onde você nasceu? Quais são suas origens?
François Euvé - Nasci na França, em uma pequena cidade ao Sul de Paris. A origem da minha família é Paris. Então, tenho muitas conexões com esta cidade. Nasci em berço católico e tive, o tempo todo, um bom relacionamento com a Igreja. Fui muito feliz em estudar numa escola jesuíta, ao final da minha primeira formação. Essa foi a primeira oportunidade que tive de ter contato com a Companhia de Jesus. Durante a formação universitária e meu trabalho com pesquisa, mantive contato com os jesuítas, especialmente através das Comunidades de Vida Cristã (Christian Life Communities – CLC). Eu era um de seus membros. Esta foi a razão pela qual eu decidi entrar na Companhia. Minha formação é em Física, e fiz meu doutorado em Física de plasma. Atualmente trabalho nesta área. Entrei na Companhia de Jesus após alguns anos fazendo pesquisa em Física. Minha formação na Companhia é de Filosofia e Teologia. Assim, decidi mudar da pesquisa em Física para Teologia. Meus principais interesses agora são a teologia da criação, teologia fundamental (sistemático-dogmática) e a relação entre as ciências naturais e a teologia.
IHU On-Line - Como descreve a comunhão entre fé e ciência nos seus interesses pessoais?
François Euvé – No princípio, eu via estes como apenas dois campos diferentes. Estava feliz com meu trabalho, gostava de fazer pesquisa em Física. Vejo a pesquisa como um trabalho muito interessante e emocionante. Eu diria que é uma espécie de vocação. Ao mesmo tempo, era um cristão praticante. Na verdade, tinha alguns questionamentos na interface entre ciência e fé cristã. Por essa razão, durante a universidade, decidi estudar teologia para conseguir responder alguns questionamentos que eu tinha sobre a criação, a atuação de Deus e assim por diante. Não tive problemas em ser cientista e cristão. Só queria lançar luz sobre algumas questões, e, naquela época, nos anos 1970, não havia grandes debates entre ciência e religião na França. Então, na verdade, meu interesse em teologia era mais na área de psicologia, ou sociologia, ou Bíblia, questionamentos típicos, e nem tanto sobre a criação em si. Muitos anos depois, quando terminei o doutorado em teologia, é que voltei a esses questionamentos entre ciência, religião e criação.
IHU On-Line - Como foi sua experiência em Moscou, ensinando teologia? Quando aconteceu? E quais são as suas principais memórias daquele tempo?
François Euvé – Esse é outro aspecto interessante da minha vida. À parte minhas pesquisas em ciência e teologia, por muito tempo estive interessado na cultura russa. Quando estudante, comecei a aprender russo. Nos anos 1960, era questionável na França aprender esse idioma na escola. Ainda nessa época, tive a oportunidade de viajar para a então União Soviética. Quando entrei na Companhia, disse a meu superior que tinha esse interesse pela cultura russa e tentava manter a prática nos idiomas. No final dos anos 1980, houve a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Em 1992, a Companhia de Jesus aventou se seria interessante eu ir para lá. Como era um dos vários jesuítas no país que já sabia russo, fui convidado a fazer essa viagem. Aceitei. Isso foi no final da minha formação na Companhia. Não estava ocupado com pesquisa ou ensino. Fiquei lá por três anos. Depois de dois anos, refleti e achei que não era minha verdadeira vocação ficar em Moscou. Foi uma boa experiência. Ensinei em um pequeno instituto teológico, que, na época, pertencia à diocese, e a Companhia de Jesus depois assumiu. Ensinei teologia, eclesiologia e ecumenismo.
Outro aspecto importante foi que, quase por acaso, tive a possibilidade de ter contato com cientistas. Não eram pessoas que eu conhecesse antes. Através do Observatório do Vaticano, tive contato com alguns cientistas astrônomos em Moscou. Eles me deram o endereço e fui visitá-los. Novamente, a criação, origem, a ciência, e assim por diante, voltaram para mim. Pensei que seria importante voltar a esse campo, e hesitei se ficaria na Rússia e participaria na missão geral da Companhia na Rússia, ou se eu voltaria a fazer mais pesquisa acadêmica. Então, esse contato com os cientistas lá me ajudou a decidir a voltar à pesquisa teórica nesse campo da criação e ciência. Voltei para Paris e comecei meu doutorado em Teologia. Quanto à Rússia, continuo em contato com algumas pessoas de lá, mas apenas em termos de amizade, não em relação a interesses profissionais.
IHU On-Line - O que a cultura ocidental pode aprender com países como a Rússia, por exemplo? Além disso, como está a situação do diálogo entre os católicos romanos e os ortodoxos?
François Euvé – É uma situação complicada. Na verdade, a igreja russa, ortodoxa, está agora num processo de reconstrução. O interesse dela está muito concentrado nos seus próprios problemas e questões. O mesmo, mais ou menos, vale para os católicos na Rússia. Estão mais interessados na vida paroquial e litúrgica, no serviço social, do que com questões teológicas e ecumênicas. Há alguns lugares para diálogo. Tive bons contatos com alguns padres teólogos, em Moscou, onde participei de congressos ou simpósios. Foi uma experiência interessante. Mas, na verdade, no meu campo de pesquisa atual, não há tantos trabalhos feitos por teólogos ortodoxos russos. Não tive oportunidade real para trabalhar com eles. Naquela época, os encontros eram sobre a vida na Igreja e questões mais gerais. E nessas questões não tenho mais interesse. É possível ter um bom relacionamento com teólogos e círculos acadêmicos ortodoxos. Toda a vida paroquial é diferente, é meio complicada, pois depende principalmente do lugar. Em Moscou, a situação é muito mais difícil do que no interior. Algumas comunidades católicas têm relações muito boas com os ortodoxos. Mas depende do lugar. Além disso, alguns católicos tinham uma atitude com os ortodoxos que não era muito conveniente. Devo dizer, ainda, que não estou mais muito envolvido com a questão ecumênica.
IHU On-Line – Como diretor da Cátedra Teilhard de Chardin,  qual é seu ponto de vista a respeito do conceito de Cristo cósmico?
François Euvé – Primeiramente, gostaria de mencionar alguns aspectos sobre a Cátedra Teilhard de Chardin que funciona no Centre Sèvres, em Paris. Antes de mais nada, interesso-me por Teilhard de Chardin por causa da minha pesquisa no diálogo entre ciência e religião. Na França e na cultura francesa, esse pensador foi um dos que mais se envolveram nesse diálogo. Evidentemente, como jesuíta, precisamos nos interessar por ele. Trabalhei sobre suas ideias e, há cinco anos, decidimos começar com o que chamamos de Cátedra Teilhard de Chardin, primeiramente para encorajar todos os trabalhos sobre esse jesuíta e para desenvolver e pesquisar sobre questões de ciência e religião. Então, esse é o contexto. Quanto às ideias desse pensador, diria que estou muito interessado na concepção de estender a abordagem teológica de Cristo para a escala do Universo. Não apenas Cristo como redentor da humanidade, mas como redentor do cosmos em si. Claro que não é uma ideia fácil, porque o principal interesse da Bíblia é pela humanidade e sua criação, como um lugar especial para as ideias de Deus, se é que posso dizer assim.  O cosmos como tal não é o centro da revelação cristã. Mas agora ficamos mais conscientes da importância da matéria, do corpo, do universo nas nossas vidas.
Teilhard tinha essa intuição de que o que aconteceu, o que tem a ver com a revelação cristã, tem a ver também com o que acontece no universo. Então, esse conceito de Cristo cósmico não quer dizer que Cristo em si seja identificado com o cosmos como tal, numa espécie de panteísmo. A sua ideia não é bem esta. Mesmo que Theilhard não tenha detalhado isto, penso que é através da humanidade que Cristo está presente, e Deus está presente no cosmos. Deus não está presente no cosmos diretamente, mas através da humanidade. A humanidade tem uma responsabilidade, e isso é mais evidente na Terra e menos evidente no cosmos em geral, mas a humanidade como princípio, a humanidade como tal, é realmente o centro da revelação. A pessoa humana não é apenas a alma, ou espírito, ela é corpo. E através do corpo ela está presente, está dentro do universo. Esta é a forma como eu posso, mais ou menos, explicar essa ideia de Cristo cósmico.
IHU On-Line - Chardin tentou unificar fé e ciência em seus livros. Como você vê esse diálogo hoje? Acredita que hoje em dia esse diálogo melhorou?
François Euvé – Mais ou menos. É um tipo de paradoxo. Na verdade, como disse antes, digamos há uns 30 ou 40 anos atrás, não havia tanto interesse para o diálogo entre ciência e fé. Porque são dois campos diferentes, separados. Os cientistas se concentravam em fazer toda a pesquisa e desenvolver todas as teorias, e assim por diante. E, por outro lado, a fé cristã preocupava-se apenas com o que acontecia com a humanidade, Igreja. Agora, especialmente por causa do desafio da ecologia, temos que levar em consideração que a vida cristã está encarnada no cosmos. Então, um teólogo cristão não pode ignorar o que acontece no campo da ciência. Esse é um ponto: entre os teólogos aumenta o interesse pela ciência. E, por outro lado, entre os cientistas modernos está havendo um questionamento cada vez maior e bem considerável. Pois a ciência, agora, está sendo questionada por muitas pessoas. Para quê? Onde e por que fazer ciência? Qual é o futuro da humanidade? Qual é o futuro do universo? E assim por diante. São questões formidáveis. Vários cientistas se perguntam isto. Como eu disse, aumenta o interesse mútuo entre as duas áreas. Por outro lado, existe um desenvolvimento de tendências fundamentalistas, como é o caso do cientista britânico Richard Dawkins.
IHU On-Line – Um fundamentalismo baseado na razão...
François Euvé – Sim, isso mesmo! Um tipo bem estreito de razão.
IHU On-Line - Sobre a teologia, especificamente, qual é a situação dessa ciência na Europa? Quais são seus principais desafios diante da sociedade pós-moderna?
François Euvé – Eu poderia dizer que somos confrontados com novos problemas. Acredito que um bom ponto de partida poderiam ser os problemas ecológicos. Além de estarmos ficando cientes do futuro da Terra, estamos mais conectados num estado de espírito histórico, numa forma histórica de pensar. Nós não podemos pensar mais em ciência como uma forma razoável permanente de ver o mundo, como se este fosse ordenado em categorias fixas. Encontramo-nos mais em uma forma evolucionista de pensar, de ver o mundo. Nisso eu entrelaço os conceitos "evolucionista" e "histórico".
IHU On-Line - O que o senhor está lendo agora? Algum livro específico?
François Euvé – Estou lendo alguns livros que preciso ler para minhas pesquisas. Aos poucos, descubro a literatura brasileira e interesso-me por ela. A Bahia de todos os santos, de Jorge Amado, é a obra que leio no momento. Infelizmente, tenho em mãos uma tradução francesa, e não o original, em português.


fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br




 

domingo, 1 de novembro de 2009

Um testemunho emocionante

  

Um testemunho de fé sobre drogas, suicídio e Amor.



Pr Julio Soder


Estava quase cochilando, depois do almoço de domingo, quando Ernanio ligou despertando-me imediatamente: -"Pastor, o Ledir tomou veneno!".

Acho que era por volta do ano de 2002, na cidade de Cacoal, em Rondônia, região conhecida como "Amazônia Legal". Eu dirigia os programas terapêuticos da Fundação Vida Nova, uma entidade filantrópica que existia pela graça de Deus através do amor, trabalho e sustento de Credival e Raquel Carvalho, um casal de médicos, autênticos cristãos a serviço do Reino de Deus.

O centro de recuperação era na saida da cidade, já zona rural. As condições eram precárias, a estrutura deficiente e os recursos escassos. Apesar de já haver sido emitida uma regulamentação pela Anvisa, as comunidades terapêuticas ainda estavam em fase de adaptação e, além disso, os orgãos fiscalizadores, juízes, ministério público e até a prefeita, davam graças a Deus por existir gente como nós, que se importava, amava e sabia como fazer a recuperação, tirando das costas deles esse trabalho, feito voluntariamente e sem recursos públicos.

Ledir era viciadão; tinha 22 anos. Estivera internado conosco muitas vezes. Saia, depois de algumas semanas internação, sem concluir o programa, e retornava só de calção e alucinado, embora eu tenha dito a ele, em todas as vezes que ele saira, que nunca mais o receberia. "Conversa de pastor".

Nesta última vez que ele retornou as alucinações demoraram um pouco mais a passar. Ele havia balbuciado algumas vezes que alguém "estava tentando matá-lo" e "vou me matar". Nós, eu e os monitores, já tínhamos ouvido aquilo dele muitas vezes e não demos muita atenção.

Naquele domingo, após o almoço, Ledir passou por Ernanio, o monitor de plantão, e disse: "-Tomei veneno". Ernanio, conhecendo-o, não ia dar atenção mas sentiu o cheiro da química forte e confrontou-o imediatamente. Então saiu apressadamente em direção à casinha de ferramentas e encontrou um frasco vazio de Karatê, um piretróide, organoclorado, que não tem antídoto e imediatamente me ligou.
Apesar das condições precárias não havia desculpas para uma falha tão grande na segurança de pessoas que não eram responsáveis por seus atos na situação em que estavam. Ninguém da equipe terapêutisa sabia da existência daquele produto e a porta da casa de ferramentas não tinha tranca.

-"Ponha o Ledir no carro e leve voando para o hospital. Te encontro lá!"

Ernanio teve o bom senso de levar o frasco vazio. Encontrei-o na portaria. Ele parecia assustado.
Entrei na sala de emergência e senti a tensão do ambiente. Havia quatro enfermeiras e o médico atendendo o Ledir; três delas tentavam segurá-lo enquanto uma fazia a lavagem estomacal. Ele era um rapaz forte apesar de usuário de drogas; foi difícil segurá-lo.

O Dr Paulo Elifas, médico de plantão, morador antigo da cidade e muito respeitado, chamou-de lado e disse: -"O senhor pode avisar a familia e preparar-se para o pior. Estou apenas fazendo o procedimento de praxe mas isso não vai adiantar muito devido ao tipo de substância, o volume e pelo tempo que ele ingeriu. Não há mais o que fazer".

Naquele momento senti um peso enorme na alma. Confesso que não pensei somente na vida do Ledir; pensei também na repercussão que ia dar se ele morresse; pensei no processo que daria sobre a entidade e sobre mim; eu era o responsável; pensei no nome dos cristãos e da igreja, pensei no centro de recuperação fechando...o que seriam daquelas vidas. Pensei em tanta coisa...mas eu era o responsável; tinha que fazer alguma coisa!

De súbito eu disse ao médico: -"Pois o senhor faça tudo o que tem fazer. Eu vou pra casa clamar ao meu Deus e ele mostrará que tem poder!". O Dr Paulo Elifas fez um muxôxo de indiferença; ele não cria em nada daquilo que eu disse e até eu tinha minhas dúvidas mas era o que eu sabia, podia e devia fazer.

No carro de volta pra casa eu delirava: -"O que eu fui dizer?".

Em casa clamei! Clamei e reclamei! Clamei pela minha vida,. pela do Ledir, pela obra, e até por uma provável fé futura da equipe do hospital pois eu havia dito em alto e bom som que Deus me atenderia. Esbravejei: -"...e agora eu já disse, eu já falei que O Senhor cura!".
Entreguei...eu fizera tudo que sabia e podia. Descansei. Agora era esperar.

Dois dias depois Ledir saiu andando e rindo do hospital. Tratei-o afetuosamente mas depois dei uma bronca nele pelo susto que nos deu.

O Dr Paulo Elifas hoje é convertido e diácono da Primeira Igreja Batista de Cacoal-RO.

A última notícia que tive do Ledir é a de que ele era obreiro numa casa de recuperação em Ji-paraná-RO.


***
Julio Soder é pastor da Igreja Batista Peniel e trabalha com recuperação de Quimio-dependentes.

sábado, 31 de outubro de 2009

Carole King - You've Got A Friend

Nas horas mais difíceis creia que você tem um amigo. E que ele vem correndo ao seu encontro.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Coisas que fazem a Igreja ser amada


Posted: 28 Oct 2009 12:00 PM PDT

NOTA: Quando me refiro à igreja na lista abaixo, estou pensando na igreja orgânica, invisível aos olhos humanos, aquela que só Deus conhece como Seu único e exclusivo remanescente fiel, a noiva de Cristo, composta dos filhos e súditos do Reino. É essa igreja que amo e sou membro.

Que mais amo em ti?

1. AMO TUA VOCAÇÃO PROFÉTICA. Quando exerces teu papel profético de denunciar o mal e delatar a injustiça e quando desmascaras corajosamente o rosto imundo da corrupção e serves tu mesma de espelho, para o mundo ver Jesus refletido em teu semblante.

2. AMO TUA CORAGEM DESTEMIDA. Quando desfazes os altares da vaidade, desbancas os postes ídolos do abuso de poder, detonas os totens dos falsos profetas e pastores fingidos, esses que amam a popularidade, a fama e o dinheiro e arrastam milhares de incautos à decepção e à tristeza irreversíveis, até que tu venhas e a ser alento e ponto de apoio para voltarem a caminhar, Para depois correrem livres e voarem em direção a uma vida pujante de alegria e liberdade em Cristo, nunca dantes experimentada.

3. AMO TEU AMOR DESMEDIDO. Quando te identificas com as pessoas às quais tu proclamas a verdade do Evangelho, amando-as incondicionalmente, vendo sempre o bem no outro, e incluindo-o como teu semelhante e irmão de caminhada. Se acontecer algum processo de seleção no final, cabe a Deus fazê-lo, como prerrogativa exclusiva Dele.

4. AMO TEU TESTEMUNHO IMPOLUTO. Quando, em alguns pontos luminosos de tua história, e ainda hoje se vê rasgos nítidos de tua original missão de servir de ponte de retorno entre o mundo perdido e o seio do Pai, de ser farol de referência, lucidez e honradez aos que estão à deriva na correnteza do mar da corrupção, e ser rocha firme aos que afundam na areia movediça das certezas relativizadas.

5. AMO TUA HUMILDADE, À SEMELHANÇA DE TEU MESTRE. quando te conscientizas que teu lugar é servir no vale escuro da dor e da rejeição e não no topo do mundo, debaixo dos holofotes e flashes da fácil aceitação.

6. AMO QUANDO TE MOSTRAS MADURA EM TUA PROPOSTA DE SANTIDADE.Quando descobres que o caminho da maturidade rumo à santidade é o da experiência do andar vivencial com Jesus, e não a freqüência compulsória a um culto, e a liberdade consciente como a melhor forma de amadurecimento em direção ao céu.

7. AMO TUA ESTRATÉGIA INTELIGENTE DE CONQUISTAR O MUNDO. Quando adotas a teologia encarnacional da identificação participativa e te imiscuis no meio do mundo de forma sutil, subversiva, sem alarde e autopromoção, e através de recursos didáticos criativos se utilizando da cultura e das artes, consegues mudar os rumos da história.

8. AMO TUA OBJETIVIDADE FULMINANTE. Quando não fazes “cavalo de batalha” com coisas inúteis e irrelevantes para a vida como defender doutrinas humanas, dogmas e tradições de usos e costumes, e por outro lado, enfatizas o que é essencial para a vida aqui e o porvir, como incorporar o Evangelho Simples, amar a Jesus, vivenciar o amor entre os irmãos, reunir com os amigos para conversar, assistir o necessitado, abrigar o sem casa, dar alimento ao faminto e prover uma base sólida de educação aos que não teria nenhum futuro consistente e a chance de poder sobreviver nessa sociedade de lobos vorazes que dilaceram o ânimo doa fracos e despedaçam a esperança dos pequeninos. Mas aguarde com paciência o terrível julgamento que recaíra sobre sobre toda a alcatéia desses predadores insaciávais, por tocarem nesses amados pequeninos do Senhor...

9. AMO TEU SENSO AGUÇADO DE JUSTIÇA E MISERICÓRIDIA. Quando usas sabiamente a disciplina bíblica como elemento de cura e inclusão dos que entre ti fraquejam e tropeçam, levando-os invariavelmente ao retorno feliz, e curados, se levantam para ser referencial de vida a tantos outros que caem e tropeçam na caminhada.

10. AMO TUA MISSÃO BASEADA NA COMUNHÃO VIVENCIAL COM O MUNDO.Quando compreendes claramente que o “ide” não é um imperativo, mas “indo”, um gerúndio de convivência relacional no dia-a-dia, dando idéia de “enquanto vão, preguem”. Isso envolve a necessidade da saída do reduto quentinho e confortável do templo para a convivência despretensiosa lá fora, e sem segundas intenções, encontrar as pessoas em seus habitats, áreas de convivência, trabalho e lazer, e se tornando uma delas, fazer o Evangelho conhecido pelo servir sem nenhuma pretenção, a não ser aquela de gerar grandes amizades com os que compartilham conosco a mesma jornada de vida. Tal qual Jesus faria...

QUANDO AGES ASSIM, VIVES O QUE É SER IGREJA NO MUNDO E ENTENDES QUE SER IGREJA É MUITO MAIS DO QUE VEMOS POR AÍ... APESAR DE SER IMPRESSIONANTE O NÚMERO DOS QUE SE JACTAM PERTENCEREM AS TUAS FILEIRAS.

***
MANOEL SILVA FILHO é CONSPIRADOR DO REINO, LÍDER DA COMUNIDADE ABRIGO R15


Fonte: Manuel DC Leia também Dez coisas que odeio nesta Igreja
[via Genizah Virtual]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Para ler a vida


Posted: 27 Oct 2009 05:00 PM PDT
O estudo traz uma releitura da vida

"Dos 5 aos 14 anos, morei com minha avó Julia, em Mecejana, no Ceará. Eu morava numa casinha de palha, a 10 quilômetros da casa do meu pai. Ficava numa capoeira. Minha avó era uma pessoa muito inteligente, capaz de decorar um livro inteiro de cordel apenas de ouvir a história umas duas vezes. Como ela não sabia ler, meu pai lia para ela, e ela me contava as histórias. Ou as cantava em forma de cantoria, como os repentistas. Foi com ela que aprendi os rudimentos do cristianismo. Ela tinha um catecismo feito de papel-cuchê, com umas ilustrações belíssimas da Capela Sistina, que mostrava desde a Criação até o Apocalipse, o fim do mundo. O livro não tinha escrita, só ilustração. Era feito para analfabetos. Minha avó dizia que no Ceará havia padres, freiras e tudo isso. No meu imaginário de criança, ao ouvir tudo isso, eu comecei a dizer que, quando eu crescesse, seria freira. Todas as vezes que eu dizia isso, ela me aconselhava a estudar. Dizia que freira não podia ser analfabeta. E cresci com esse conselho. Quando fiquei doente, resolvi cuidar da minha saúde e ser freira. Fui para um convento, onde fiquei dois anos e oito meses. Foi assim que comecei a estudar. Para ser freira, eu tinha de aprender a ler. Eu tinha 16 anos e meio quando fui para Rio Branco para ser freira. E continuo tentando me curar do analfabetismo até hoje. Analfabeto é também quem não consegue fazer uma leitura em relação aos tempos que está vivendo, quem não consegue ler os valores que se quer reforçar ou outros que a gente precisa mudar. Enfim, a alfabetização é um processo contínuo; é dar outra significação à vida."

Marina Silva

fonte: Época

domingo, 25 de outubro de 2009

Para desistir de querer ser Deus


Querendo ser Deus?

Por Leonardo Boff*

Rose Marie Muraro é uma mulher impossível. Com extrema limitação de vista e de saúde escreveu 35 livros e editou cerca de outros 1600. Foi pioneira do feminismo brasileiro. Seu estudo sobre a sexualidade da mulher brasileira, publicado pela Vozes de Petrópolis se transformou num clássico seja pela metodologia seja pelas categorias de análise.
Formada em física, sempre se preocupou com a tecnologia e sua incidência no destino humano. Agora, no avançado dos anos e após muitas pesquisas e manejando mole imensa de fontes, informações e autores nos entrega um livro-síntese com o titulo Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? É uma publicação da Editora Vozes de Petrópolis da qual foi por 17 anos diretora editorial.
O subtítulo ‘Querendo ser Deus?’ define a perspectiva de sua análise e ao mesmo tempo faz ecoar uma denúncia contra o tipo de ciência e de tecnologia dominantes na história. Na verdade, faz um soberano rastreamento histórico da tecnologia desde os alvores da humanidade quando há mais de dois milhões de anos surgiu o homo faber, aquele que, por primeiro, utilizou o instrumento para se impor à natureza, passando pelos vários períodos históricos com suas respectivas revoluções até chegar aos tempos contemporâneos da engenharia genética, da robótica, da nanotecnologia, da biologia sintética para culminar na fusão entre homem e máquina.
O que Rose nos mostra, ao longo de seu livro, é o calvário da Terra e a lenta e progressiva crucificação da vida e da natureza através do poder da tecnociência, posta a serviço da vontade de poder na sua concretização mais crua e cruel no capital/dinheiro.
Mas nem sempre foi assim. Primitivamente o saber e a técnica estavam a serviço da solidariedade e da partilha, atendendo as demandas humanas e aliviando o peso da vida. Mas do momento em que surgiu a moeda e ela se fez a mediação exclusiva para todas as trocas e se transformou ela mesma em mercadoria com preço (juros) se produz uma perversa revolução. Passa-se da cooperação para a competição, do cuidado para a agressividade. O que vige então é o ganha/perde e não o ganha/ganha. A sociedade é conflitiva com exércitos, muitas guerras e grandes mortandades.
Os senhores do dinheiro sujeitam a si as pessoas, controlam a sociedade e decidem que saber e que técnica cabe desenvolver para reforçar seu poder. Não se produz para a vida mas para o mercado. Não se inventa para a sociedade mas para o lucro.
O atual projeto da tecnociência acelerou enormemente a história. Em cem anos a humanidade caminhou mais do que nos dois milhões de anos anteriores. Esta velocidade estonteou a mente e está gerando uma verdadeira mutação humana, somente comparável àquela ocorrida na evolução biológica multimilenar. Cientistas projetam introduzir nanopartículas na corrente sanguínea do cérebro para gestar uma inteligência supra-humana.
Emergiria assim um híbrido de ser humano e máquina, bifurcando a humanidade entre os melhorados e os não melhorados.
É contra esse intento que se insurge Rose Marie Muraro, pois ele configura suprema arrogância e atualização da antiga tentação bíblica do sereis como Deus.
O ser humano, por mais que queira, jamais superará os limites de sua natureza. Só uma ciência com consciência, servirá à vida e garantirá o futuro da Terra. A autora propugna por moedas complementares, por um consumo compassivo e reciclável, por uma revolução radical de dentro para fora e de baixo para cima, no jogo do ganha/ganha, como forma de sair com êxito do cipoal em que nos enredamos. A frase final de seu brilhante livro é esperançadora: “Quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é mas que intuímos desde sempre”.
[Autor, em parceria com Rose Marie Muraro, Feminino/Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças, Sextante 2002].
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.
(Envolverde/O autor)
Fonte: ENVOLVERDE
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