domingo, 23 de agosto de 2009

Pr. Édson: Formatura de Teologia no Bennett

Hoje, 22/08/2009, aconteceu a formatura no Bennett de uma turma de teologia de "regime especial", que acontecia nos finais de semana nesta instituição.
Fui para testemunhar a alegria do Pr Edson e de seus familiares. Foi uma experiência muito especial.
Tivemos momentos marcantes; o Bispo Paulo Lockman trouxe uma palavra muito inspiradora para todos nós; seu foco foi a aplicação da teologia na vida, como instrumento para mudança, e não para a vaidade pessoal.
Foi bem rever o professor Uriel, uma pessoa tão especial, que realmente fez da educação um comovente sacerdócio. O professor Marcelo Carneiro, sempre tão simpático, orando como quem via o invísivel, conduziu a todos para a presença de Deus; brados de entusiasmo e devoção cortaram o silêncio da solenidade neste momento. Nelson Marriel, impecável em traje sacerdotal, distribuia sorrisos e segredos bem-humorados nos ouvidos dos formandos que o cumprimentavam; na oportunidade para falar, citou um poema, como já lhe é característico.
Também muito emocionante foi a pregação apaixonada do pastor-professor Waldemar. Com suas barbas longas, toga pastoral cobrindo seu corpo e com o olhar radiante e luminoso, parecia ter emergido do passado, dos tempos das catacumbas, dos pais da Igreja, cantando e pregando sobre o amor de Deus, que ele tão bem refletiu. Foi um destes momentos na vida que eu me sinto especialmente privilegiado por ter vivido. No final de tudo, fui cumprimentá-lo, na certeza de estar apertando as mãos de um profeta para os profetas.
Foi muito bem estar no Bennett neste dia. Ver a alegria de todos e os sonhos desenhados em cada face. Memórias que servirão de consolo no futuro em meio às dores, perseguições e aflições do ministério e da vida.

Parabéns pr. Edson.

Luciano Oliveira

MPB: Deus inspira fora dos guetos gospel.

MPB nossa de cada dia nos dá hoje!

Era pra ser uma resposta a algumas cartas. Mas são muitas as cartas criticando-me por gostar de MPB. Resolvi escrever um artigo… assim é melhor… respondo as cartas e ainda escrevo um pouco daquilo que gosto e penso.

Sinceramente, não dá pra entender o ódio mortal que alguns cristãos sentem em relação a nossa Musica Popular Brasileira. Ou melhor, dá pra entender sim… esse pensamento é o simples reflexo de um povo que foi “colonizado” espiritualmente por uma mentalidade estadunidense-européia e hoje sofre nas mãos dos “brasileiríssimos” apóstolos da “teologia do gueto” (aquela que afirma que tudo de fora é do diabo e tudo de “dentro” é de Deus).

Quanto à música, então, nem se fala! Música que não louva a Deus, é do diabo!

Meu Deus!!! De onde tiraram essa idéia? Onde ficam a poesia, a arte, a beleza, o romantismo? Será que estamos mesmo fadados a sermos reféns das rádios evangélicas e suas “maravilhosas” canções românticas? Será que só poderemos ouvir a “poesia” dos mantras repetitivos e infindáveis? Não poderemos mais ouvir os nossos chorinhos lindos e estaremos à mercê dos chorões de auditório? Será que o meu Brasil-brasileiro-mulato-branco-moreno-e-negro cairá sob a bandeira de Israel e seus shophares mágicos?

A implicância com a música brasileira ao meu ver tem dois motivos, ambos impregnados na mente de nosso povo e já considerados como “doutrina bíblica” por muitos.

O primeiro motivo é por ser… “música”. Como assim?

Há algum tempo atrás surgiu uma “doutrina”, dessas que surgem de vez em quando e fazem aquele estrago imenso, onde se dizia que Lúcifer era “ministro de louvor” no céu, daí entender tanto de música e saber usar a seu favor essa maravilhosa arte. Logo, a música que não era pra louvar a Deus, só poderia ter outra fonte: o gramunhão! Daí rejeita-se QUALQUER coisa que não tenha o rótulo de “evangélico” e, mais recentemente, o melhor dos rótulos: “gospel” (assim acaba de vez qualquer tentativa de ser brasileiro).

Essa idéia errônea atribui mais poder ao diabo do que a Deus. Ora, Deus é criador de tudo e tudo o que é realmente belo vem dEle, é o que se chama na teologia de “graça comum” (é claro que o conceito de graça comum é bem mais amplo, mas fiquemos aqui na beleza…). Não há beleza que não venha de Deus. Lembro-me de uma música do MILAD, em seu álbum “Retratos de Vida”. A música chama-se “Platéia” (Toninho Zemuner – Alexandre Rocha) e diz:

“Pra começo de história
Entre acordes e tons,
Onde Chicos e Miltons
Fazem os sons…
(…)
Ah! Se todos soubessem
De onde vêm esses dons,
(…)
A fonte é Deus,
Essa fonte de vida…”

Essa “teologia” ainda foi mais fomentada quando Raul Seixas deslanchou com “Rock do Diabo”, onde afirmava que “o diabo é o pai do rock”. Quanta ingenuidade a nossa!!! Estamos fazendo com a música a mesma coisa que fizemos com o arco-íris, entregando coisas divinas ao movimento gay e à Nova Era como se realmente o arco-íris fosse um sinal diabólico, totalmente contrário aos planos de Deus. Ignorância! Ignorância Bíblica! A única coisa que o diabo conseguiu ser pai é da mentira (João 8.44) e é exatamente em sua especialidade que ele coloca na mente dos cristãos que tudo o que não é da IGREJA não é de DEUS.

Mas isso também depende dos “frutos” (entenda-se aqui frutos como propaganda, marketing, e principalmente LUCRO). Até pouco tempo atrás futebol era uma coisa do diabo. Isso até os mais famosos jogadores se dizerem evangélicos e aí os pastores, ávidos por aparecerem na mídia ao lado de seus fiéis… sacralizaram o que até então era diabólico. Hoje ninguém mais comenta que futebol é do diabo e que a bola é o “ovo do capeta”. Deixou de ser há muito tempo, desde quando começou a trazer frutos e dividendos pro “Reino”.

Em tempo: não sou contra o futebol. Pelo contrário!!! Sofro como flamenguista; gosto de bater uma pelada com amigos; de ir ao Maracanã quando dá tempo torcer pro Mengão; em épocas de copa do mundo, paro pra assistir todos os jogos do Brasil, e como bom brasileiro estou torcendo desde já pelo hexa da nossa seleção.

Pois bem, o diabo nunca foi ministro de louvor no céu (só se isso fizer parte de algum livro apócrifo), e o máximo que ele pode fazer é deturpar aquilo que Deus criou, mas nunca ser pai de alguma coisa. A música é um presente de Deus à humanidade, que pode ser utilizada em seu louvor, como também simplesmente para demonstrar sentimentos belos como o amor, a saudade, o carinho, sonhos, etc.

Essa idéia faz com que a música seja olhada como a pior arte, arte exclusiva de Satanás. Não vejo ninguém recriminando um filme, uma poesia, uma escultura, uma exposição de quadros… tudo isso é arte. Só não pode haver música!!! Se houver música, na cabeça de muitos, a coisa passa a ter um outro dono: o diabo. Todas as outras artes podem ser apreciadas, sem problema algum, menos a música. Santa ignorância! Santa hipocrisia!

É claro (e é aqui que está o cerne da questão) que há a boa música e a música ruim. Não dá pra ter prazer ouvindo “Vem Tchutchuca, vem aqui pro seu tigrão” ou “Hoje é festa lá no meu apê… vai rolar bundalelê”. Mas não podemos julgar o todo pela parte ruim. Há música ruim na MPB? Claro que há! O que faço? Não ouço! É simples… Há música boa na MPB? Claro que há! O que faço? Ouço… e louvo a Deus por ter dado ao homem (mesmo o que ainda não O conhece pessoalmente) essa capacidade “divina” de harmonizar letra e música, verbo e melodia… isso é dom de Deus!!! Não vem do diabo, como muitos querem.

Experimente ouvir de coração aberto “Toada” (Boca Livre); “Sapato Velho” (Roupa Nova); “Aquarela” (Toquinho); “Eu Sei que Vou Te Amar” (Vinícius); “Sucedeu Assim” (Tom Jobim); “Vieste” (Ivan Lins) e muitas outras músicas lindas de nossa MPB e você entenderá o que estou dizendo…

E outra questão precisa ser levantada. Há música boa no meio evangélico? Claro que há! O que faço? Canto, toco, ensino nas igrejas, etc… Há muita porcaria no meio evangélico? Claro que há! O que faço? Não ouço e nem recomendo. É simples também! E ainda cabe alertar o povo de Deus contra o engano desses “senhores de gravadoras” que comandam o mercado gospel e enfiam goela abaixo os seus queridinhos e suas músicas “de Deus”.

Portanto, antes de “julgarmos” os de fora, julguemos a nós mesmos. Nossa qualidade musical, conteúdo, as maracutaias no meio “gospel”, a máfia das rádios evangélicas e de seus donos-sempre-candidatos-políticos, o uso do nome de Deus em vão para enriquecer pilantras e enganar o povo, etc…

A segunda questão que creio ser fundamental para a não aceitação da MPB por parte de alguns evangélicos é o simples fato de ser… Brasileira! A igreja evangélica no Brasil tem a péssima mania de só considerar sacro o que “vem de fora”. Há a rejeição latente aos ritmos brasileiros, a miscelânea cultural que é a nossa pátria tupiniquim.

Instrumentos de origem africana são quase sempre associados aos cultos do candomblé, a riqueza de sons e ritmos é sempre associada ao folclore, ao popular, e a arte popular é profana… indigna de se cantar “pra Deus”.

É comum em casamentos, processionais, recessionais, e outros momentos “instrumentais” em igrejas as grandes composições de Bach, Beethoven, Haendel… mas não há espaço pra Carlos Gomes, Villa-Lobos, Waldemar Henrique, Radamés Gnattali, entre outros…

A música genuinamente brasileira é sempre olhada de lado. Bom mesmo é o que vem de fora… que nos sirvam de provas os grandes hits do “louvor brasileiro” que em sua maior parte é composta de versões do Hosanna Music, Hilsong Church, Michael W. Smith, etc. Não estou dizendo que isso não possa acontecer. Há músicas boas que podem, e devem ser traduzidas, mas por que tanto preconceito com o que vem de dentro de nosso solo, da mãe gentil e pátria amada? Por que João Alexandre, Jorge Camargo, Nelson Bomilcar, Carlos Sider, Carlinhos Veiga, Atilano Muradas, Arlindo Lima, Sérgio e Marivone (Baixo & Voz), Gláucia Carvalho e outros tantos não são conhecidos da grande maioria dos evangélicos brasileiros? Falta de talento e inspiração? Não!!! Falta de vergonha das nossas rádios e dos mega-empresários da fé. Falta de vergonha de uma igreja que nunca chegou a ser brasileira de fato.

Nossas raízes européias e estadunidenses devem ser respeitadas. Foram eles que atravessaram mares para nos pregar o Evangelho da graça. Mas somos brasileiros. Em nosso corpo e em nossa mente há uma ginga inegável, um requebrar sadio que não se contem ao som dos tambores, atabaques, violas, violões, cavaquinhos, e tantos outros instrumentos.

Voltando ao nosso assunto (MPB). A lógica que cabe no meio “gospel” também serve para a nossa cultura. Somos sempre tentados a não valorizar o que temos de bom. Temos poetas maravilhosos, compositores fenomenais em nossa MPB e em nome de uma fé totalmente equivocada desperdiçamos a chance de crescermos como brasileiros, como músicos, como poetas ao nos recusarmos a ouvir o que há de bom do lado “de fora” do nosso gueto.

Que reconheçamos em todas as coisas belas, e até mesmo na boa MPB, traços do criador, resquícios da imagem de Deus ali pulsantes em alguém criado à sua imagem e semelhança. Creio firmemente que Deus não punirá aqueles que ouvem a boa música brasileira, européia, estadunidense, africana… Ele ainda é Senhor de todas as coisas, mesmo que muitos dos que se dizem seus “filhos” não queiram…

José Barbosa Junior

Fonte: CRER E PENSAR

0
0
Avalie isso

sábado, 22 de agosto de 2009

Voltando.

Depois de um "longo e tenebroso inverno" voltei a escrever neste Blog.
Por falta de tempo, aliada a dúvidas sobre a sua relevância, deixei-o assim, meio de lado. Resolvi voltar a escrever após ser incentivado pela minha amiga e irmã Tania Rocha.
Voltarei a postar os textos de conteúdo rico e diversificado (como o do Leonardo Boff sobre o seu aniversário) e outros de minha autoria, inclusive esboços de sermões, estudos e palestras.
Um blog, assim como um livro, só tem razão de existir se é lido por alguém. A minha sincera intenção é que alguns leitores encontrem aqui textos que os façam crescer, transformando-os em pessoas melhores e com sonhos de mudança.

Luciano Oliveira

Leonardo Boff. Aniversário de 70 anos.

Releitura da Vida à Moda de um Cego
Pelos 70 anos de vida

1. Agradecimentos
Antes de mais nada quero agradecer a Deus por ter chegado a esta idade. Bem diz o salmo (90,10):”70 anos é a nossa idade e se tivermos saúde, 80”. Ele é, como dizem as Escrituras, “o soberano amante da vida”(Sab11,26). Ele inclui-me em seu amor.
Em seguida quero agradecer aos familiares segundo a carne. Deles não falo para não chorar porque eles estão dentro de mim e sinto muitas saudades deles.
Neste contexto não posso esquecer a família dos Monteiro Miranda com a companheira Márcia e seus 6 filhos com quem comparto a vida e que me enraizaram no chão da realidade no qual todos os humanos nos encontramos.
Depois sinto o dever de agradecer a comunidade cristã. Ela me transmitiu a fé, o amor e a esperança de Jesus. Alimento-me de seu sonho de um novo céu e uma nova Terra, de um novo homem e de uma nova mulher junto com a ressurreição de todo o universo, feito corpo de Deus-Trindade.
Agradeço também a outra família espiritual, à família franciscana de quem herdei o legado de S. Francisco, o mais humano de todos os humanos. Dele aprendi que a vida só será verdadeiramente plena se for construída com ternura e vigor e na confraternização com todas as coisas,
Desejo agradecer aos peregrinantibus mecum aos que peregrinaram comigo ao longo destes tantos anos, aqueles, homens e mulheres, com quem compartilhei a vida, as utopias, as lutas, as tribulações e os avanços. São tantos que sequer posso nomear.
Quero manifestar a alegria pela dupla homenagem literária que me foi feita. Primeiramente pelo livro Leituras Criticas sobre Leonardo Boff organizado pelo prof. Juarez Guimarães num trabalho em conjunto do Instituto Perseu Abramo e da Universidade Federal de Belo Horizonte. Honram-me nomes notáveis de nosso pais e do estrangeiro. Em seguida quero expressar também minha satisfação e reconhecimento ao numero especial da revista Estudos Teológicos da Escola Superior de Teologia (EST) da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. É fruto de um debate que durou uma semana com especialistas que estudaram a fundo meus escritos e fizeram- lhe observações e criticas pertinentes das quais muito aprendi. Ressaltaram as convergências e as diferenças entre a sensibilidade dos Reformadores e a sensibilidade romano-franciscano-católica.
Meu agradecimento vai também a todos os que organizaram esta celebração dos 70 anos, universidades, entidades, grupos, pessoas, especialmente o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, do qual sou presidente honorário, o Serviço de Educação e Organização Popular (SEOP) que também ajudei a fundar e não em último lugar o Instituto Bennett da Igreja Metodista que sempre esteve do meu lado. Foi nos seus espaços se celebrou um ato de desagravo por ocasião do “silêncio obsequioso” imposto pelo Vaticano em 1985.
Por fim, quero agradecer a todos os que vieram nesta noite do dia 9 de dezembro aqui no Rio de Janeiro, alguns de longe e que pelo carinho se tornaram próximos.
Não direi muitas palavras. Nem farei um balanço aos 70 como fiz aos 50 e aos 60, pois não é aqui a ocasião. Apenas quero realçar alguns marcos salientes como numa leitura de cego.
2. Marcos salientes
a) Velho
Em primeiro lugar devo dizer e reconhecer que estou velho. Para as condições brasileiras sou oficialmente velho. Não quero, porém, entender o ser velho meramente na ótica da biologia. Mesmo assim há no velho uma perda irrefreável do capital vital e um lento colapso dos sentidos. Mas a velhice é muito mais que sua dimensão biológica. É a última etapa da vida, a chance derradeira que a vida nos oferece para continuar a crescer, chegar a madurar e, por fim, acabar de nascer.
Se bem reparrmos, começamos um dia a nascer mas ainda não acabamos de nascer porque ainda não estamos prontos. Estamos sempre na gênese de nós mesmos, trabalhando, sofrendo, nos alegrando, nos frustrando, estabelecendo relações, amando e criando sentidos para a nossa curta passagem por este pequeno planeta. Vamos nascendo lentamente, em prestações até acabar de nascer.
A velhice é a chance última de dar o toque final à estátua que fomos talhando de nós mesmos.
A velhice tem suas vantagens. Você não precisa usar mais as máscaras que a vida lhe impõe a cada momento. Pois a vida é como um teatro no qual você é chamado a representar vários papeis. Você veste a máscara de homem, de frade, de padre, de teólogo, de escritor, de conferencista, de antigo torcedor do Canto do Rio e depois do América e de não sei o que mais. Agora como velho você tem o direito e o privilégio de ser você mesmo e de livrar-se das máscaras.
Não é um momento fácil porque frequentemente nos identificamos com as máscaras. Mas quando desaparecem, irrompe você mesmo em sua identidade. Então surgem perguntas amedrontadoras: quem é você, finalmente? Que você realmente faz neste mundo? Quais são seus sonhos fundamentais? Que demônios o atromentam? Qual é o s eu lugar no desígnio do Mistério?
Neste momento, deixamos todos companheiros para trás. Estamos sós com a nossa solidão. E não dá mais para se esconder atrás de máscaras e de papeis. Ego factus sum quaestio magna diz Santo Agostinho:”eu me fiz para mim mesmo, a grande questão”.
A vida na velhice impõe esta exigência: que nos confrontemos, com temor e tremor, com as questões derradeiras e inadiáveis. É então que de fato podemos madurar, ganhar gravidade e terminar de nascer. É a chance de virarmos sábios. É ilusão pensar que a sabedoria vem com os muitos anos da velhice. Ela não vem. É o espírito, é a coragem com a qual enfrentamos estas questões incontornáveis que nos pode fazer sábios. Então teremos concluído a tarefa de nossa vida. Saímos do palco. Entramos no silêncio. Morremos. Se não carregados de dias pelo menos, carregados de experiência, quem sabe, de sabedoria.
Pois cheguei a esta derradeira fase da vida. Não chegaram meu pai que morreu com 54 anos, nem minha mãe que faleceu com 64, nem minha queridíssima irmã Cláudia que se transfigurou aos 33 anos. Eu cheguei e isso é graça de Deus.
Por isso, para atender a estas questões, deverei tomar tempo, renunciar a tantas andanças, falar menos, meditar mais e levar avante a viagem mais longa da vida que é rumo ao próprio coração. E então preparar o Grande Encontro. Descer como Cristo até o coração do universo, lá onde o coração da pedra, o coração da flor, o coração de todo vivente, o coração do ser humano e o coração do universo é um só coração. Encontrar-se com Deus, o Coração dos corações, a Fonte originária de todo ser, de toda bondade, de todo amor, de toda ternura e de toda compaixão.
Se ser velho é poder vivenciar esse processo, então bem-vinda a velhice, bendita seja a velhice. Não é castigo mas graça sobre graça. Ela nos permite experimentar o que nos diz São Paulo:”Na medida em que definha o homem exterior, se rejuvenece o homem o interior”(2Cor 4,16).
Portanto, sou um velho rumo à Fonte da perene juventude que é Deus.
b) Cristão
Sou um velho e cristão. Que me ensinou, em síntese, o Cristianismo? Muitas coisas, mas quero me ater ao essencial. O Cristianismo me fez ver que, no fundo, há somente dois mistérios: Deus e o mundo. Por que não existe o nada e sim Deus? Ele não conhece o ontem nem o amanhã. Só o agora. É a eternidade, o absoluto limite da razão. E quando me ponho a pensar quase enlouqueço. E o mundo. Por que ao lado de Deus existe o mundo? Que ele significa? Talvez o espelho no qual Deus mesmo quer se ver a si mesmo e permitindo que nós o vissimos também. Mas eles não estão separados por um abismo. Este o equívoco do pensamento grego e nosso: Deus, o transcendente, e o mundo, o imanente. Na verdade, não é assim. Existe o transparente : um dentro do outro, um presente no outro formando um único grande Coração. Imaginem a alegria de sabermos que não estamos apenas na palma da mão de Deus, mas no seu próprio coração. E esse Deus é comunhão e não solidão. Ele é feito de relações eternas entre as três divinas Pessoas. Não é sem razão que o mundo todo, como nos dizem os físicos quânticos e os modernos cosmologos, também é feito de relações e nada existe fora da relação Porque Mundo e Deus são afins, um é imagem e semelhante do outro. Para que isso fosse realmente verdade, Deus mesmo veio até nós e se fez humano. Então podemos dizer: “nossos ouvidos o ouviram, nossos olhos o viram, nossas mãos o apalparam e nosso coração o sentiu”(cf. 1Jo 1,1). Esse Deus é tão humano que é divino (Fernando Pessoa). Ele quis caminhar, se alegrar, sofrer, viver e morrer conosco para que tivéssemos a absoluta certeza de que Deus nunca está longe de nós, longe de modo nenhum. Que nós somos de sua Casa. E quando morrermos Ele vem e toma o que é seu e introduz para dentro de sua Família. Ele não quis fundar uma nova religião ou uma nova sinagoga que se chama Igreja, nem nomeou herdeiros, mas quis um homem novo e uma mulher novos. Deslanchou um sonho e um movimento que nos alcançam até os dias de hoje.
Portanto, esse Deus não é apenas Mistério sem nome. Ele é vida, comunhão e amor. E se Ele é amor, comunhão e vida, signfica então que para Ele importa que cegos vejam, coxos andem, surdos ouçam, famintos sejam saciados. Ele não fica indiferente face à paixão de seus filhos e filhas. Sofre com eles e sua ressurreição simboliza um insurreição contra a violação da vida destes últimos.
c) Franciscano
Sou velho, cristão e franciscano. Que significa para mim ser franciscano? Ser franciscano é encontrar através da figura de São Francisco a porta pela qual se entra e se descobre o único Cristo verdadeiro, aquele que foi um artesão e camponês mediterrâneo, tão anônimo, que as crônicas da época, seja de Jerusalém, de Atenas e de Roma sequer notificaram seu nascimento e sua morte. Era um pobre, considerado por seus familiares um louco (cf. Mc 3,21), que saiu pelos caminhos pedregosos da Palestina a pregar um sonho, o do Reino de Deus que é uma criação reconciliada com Deus, descoberto como Paizinho, na justiça, no amor, no cuidado de uns para com os outros e no perdão e que começa pelos pobres. Crucificado, ressuscitou, fazendo uma revolução dentro da evolução, mostrando que o fim da criação é o bom. Ressurreição é também uma insurreição contra um tipo de justiça que condena os inocentes.
Mas o que ensinou Francisco é encontrar Deus na criação. Ele com grande humildade se colocou ao pé de todos os seres. Confraternizou-se com as obscuras forças da Mãe Terra e com o briho benfazejo do Sol. Fez-se irmão das flores do campo, dos passarinhos, do vento, da chuva, das estrelas, do Sol e da Lua e até da morte. Por isso tratava a todos os seres com finura e cortesia. Seu mundo é cheio de magia, de encantamento e de música.
De São Francisco aprendi que não basta ser cristão. Temos que ser bons, humanos, finos, sensíveis, amorosos e abraçar ternamente a cada criatura até o voraz irmão lobo de Gubbio. Então não vivemos num vale de lágrimas mas numa montanha de benaventuranças. Como nos recorda Gaston Bachelard, “não aparecemos como filhos e filhas da necessidade mas como filhos e filhas da alegria”.
d) Teólogo
Sou velho, cristão, franciscano e teólogo. Que é um teólogo? É um ser quase impossível. Ele levanta uma pretensão inaudita: de pensar a Ultima Realidade, Deus e tentar exprimi-la ccm palavras adequadas. De saída se dá conta de que esta tarefa é impossível. Se mesmo assim tenta, suas palavras se parecem mais a mentiras que a verdades. Como expressar quem é por definição Inexprimível? Aquele que vem ante do antes e que existe previamente a qualquer palavra? Como não desiste, não lhe resta outra alternativa que voltar-se às criaturas, lidas a partir de Deus e iluminadas por Deus. Elas todas se fazem sacramentos de sua inefável realidade. Por isso toda teologia se vê obrigada a articular o discurso sobre Deus com o discurso sobre o mundo. Como diziam os antigos mestres: a teologia vem dotada de dois olhos (ante et retro occulata): um voltado para trás onde capta os sinais deixados por Deus na história, na vida dos povos, dos mestres, dos santos e santas e das Escrituras sagradas não só judaico-cristãs mas também das Escrituras sagradas dos povos. E outro voltado para frente, lendo os sinais dos tempos, as intimidações que nos vêm da realidade e que desafiam a nossa consciência. Combinando os dois olhares fazemos uma teologia fiel à tradição e ao mesmo tempo fiel à história atual. É antiga e moderna e sempre contemporânea.
Olhando com o olho da frente, a realidade sofredora, injusta e opressora da maioria de nossos irmãos e irmãs me senti, em consciência, obrigado a ser um teólogo da libertação. O gemido dos escravizados do Egito, o clamor dos exilados da Babilônia, de ontem e de sempre, as invectivas dos profetas, a prática de Jesus e dos Apóstolos nos forçam a nos engajarmos na libertação dos oprimidos, a partir de sua fé e de sua força histórica. Se não formos teólogos da libertação em nosso contexto, dificilmente, escaparemos da critica de cinismo e desumanidade. Na verdade nos colocaríamos fora da herança de Jesus que foi libertador não porque nós o dizemos mas porque os textos fundadores do Evangelho assim no-lo mostram. E a libertação tem que ser integral: não apenas libertar os seres humanos oprimidos, mas toda a comunidade de vida que geme e da Terra, nossa Casa Comum, devastada pela voracidade do produtivismo e do consumismo. Se não libertamos a Terra vãs serão todas as demais libertações que supõe como condição prévia, a Terra viva, saudável e íntegra. Nos últimos anos tenho me batido por esta causa verdadeiramente urgente: articular o grito dos pobres com o grito da Terra, grito por libertação.
Por ser teólogo da libertação, conheci tribulações, tive que me justificar diante das mais altas instancias doutrinarias da Igreja e sofri discriminações por parte de irmãos da fé até os dias de hoje. Mas este padecimento nada é em comparação com o que os pobres sofrem. É um privilégio poder participar, por um pouco, de sua paixão dolorosa.
e) Homem
Por fim sou um velho, cristão, franciscano, teólogo e um homem.
Ser homem, plenamente homem: eis o grande desafio. Suspeito que a velhice, o cristianismo, o franciscanismo e a teologia não sejam outra coisa que caminhos e subsídios que Deus e nós criamos para chegarmos a ser o que somos, homens. “Seja o que és” rezava o aforismo antigo dos sábios de todas as culturas. Talvez o maior mistério depois de Deus, seja o universo e dentro do universo, o ser humano, homem e mulher.
Quem somos? Eu não sei. Apenas suspeito. De seguro só sei que sou um ser contraditório, sapiente e simultaneamente demente; por um lado centrado em mim mesmo e por outro aberto aos outros; portador de uma dimensão sim-bólica que me faz ouvinte da Palavra que vem de todos os lados, capaz de amor e de compaixão e também portador da dimensão dia-bólica que me faz rejeitar, me enraivecer e ofender os outros. Apesar desta união dos opostos, me sinto que sou tomado por uma fome de infinito e que me surpreendo como um projeto também infinito. E fico com o cor inquietum agostiniano enquanto não repousar no Infinito.
Mais e mais me convenço de que o supremo imperativo ético é tratar humanamente os humanos. Tratá-los humananente implica aceitar a condição humana ambígua e por isso ser paciente e compassivo com as dimensões sombrias e também ser solidário e inspirador com as dimensões luminosas.
Esta compreensão de mim mesmo se aprofundou e se problematizou ainda mais, a partir de minha continuada ocupação com a nova cosmologia, a astrofísica, a nova antropologia e com as ciências da Terra, encerradas na palavra Ecologia, objeto de meus estudos já quase 30 anos.
Ai resulta claro que o universo trabalhou 13,7 bilhões de anos para que surgissem ordens complexas, teias de relações e sistemas de informação que permitissem a vida e como expressão maior da vida, a consciência reflexa. Para que ela fosse possível, ocorreu um sutil equilíbrio de todos as energias e movimentos evolucionários. Caso contrario, não estaríamos aqui para celebrar esta festa. O universo como que pressentia a nossa irrupção lá na frente e se organizou de tal forma que finalmente pudesse surgir este ser raro que sou eu e que somos cada um de nós. Em cada um de nós culmina o universo por nós conhecido. Através de nossa consciência o universo e a Terra se pensam a si mesmo. Por nosso amor e nosso enternecimento as coisas todas se atraem como que enamoradas entre si.
Quem somos? Como já o acenei anteriormente, talvez o espelho no qual Deus mesmo quer olhar-se a si mesmo. Num momento de sua superabundância, criou alguém fora de si, diferente, uma alteridade consciente para poder comunicar-se a ela em amor, em entendimento e em ternura. Nós somos frutos desta auto-comunicação divina. Numa só palavra: somos Deus por participação. E nos criou para que pudéssemos corresponder ao seu amor. Pudéssemos amar também a Deus. Talvez a maior contribuição que Duns Scotus, o gênio medieval da teologia franciscana, foi ter entendido o propósito supremo da emergência dos er humano na criação: Deus quis que alguém fora de Deus pudesse amar a Deus como Deus se ama. Para isso projetou a santa humanidade de Jesus. Para que pudesse amar a Deus divinamente, o elevou ao nível divino. Então pode, sendo homem, amar a Deus como Deus se ama.
E ao dizer isso, mais não digo porque ficaria aquém do que disse.
3. Conclusão: a Deus a última palavra.
Vejam aonde cheguei: sou velho, cristão, franciscano, teólogo, homem e por fim, por participação, Deus. E Deus junto com vocês todos. É isso loucura ou a suprema descoberta? Todos os místicos de todos os tempos, do Oriente e do Ocidente, testemunham: somos chamados a fazer uma experiência de não-dualidade. Não simplesmente o Tão e o Mundo ou Deus e a Criação mas o Tao no mundo e com o mundo, Deus na Criação e com a Criação. E chamaram a isso de experiência de bemaventurança, de Satori, de Nirvana, de Graça e de união mística ou na expressão de São João da Cruz: “da alma amada no Amado transformada”. É suprema a Sabedoria.
Nesta altura de minha vida, sempre me voltam à mente, quase obsessivamente as duas questões fundamentais que São Francisco, meu pai espiritual, sempre colocava para si mesmo em forma de oração : “Senhor, quem sois Vós e quem sou eu? Vós o Altíssimo Senhor do céu e da Terra e eu o miserável vermezinho, vosso ínfimo servo”. Depois que os biólogos nos ensinaram que 4/5 dos seres vivos são constituídos por vermes nematóides (vermes cilíndricos), aqueles que mantémm a terra sempre fofa e apta para produzir viva é um privilégio cósmico sermos vermes, mesmo miseráveis.
As duas perguntas são suspiros da alma e não têm, na verdade, nenhuma resposta porque tanto Deus quanto nós somos mistério. Por isso as perguntas sempre retornam como num ritornelo. Bem setenciava um filósofo que no final da vida virou místico (Witgenstein): “sobre o que não podemos falar, devemos calar”. Assim todo discurso religioso é convidado a retirar-se para o nobre silêncio ou para a silenciosa reverência.
Suspeito que nosso conhecimento de Deus possui a estrutura da saudade. Esta é uma presença e uma ausência. A presença na memória e no coração e uma ausência nos sentidos. Trata-se pois de uma presença ausente ou de uma ausência presente. Toda saudade nos produz uma noble tristesse, uma alegria num transfundo de tristeza e uma tristeza aliviada pela alegria.
A única fala permitida porque não quer definir nada apenas acenar e sugerir seja a da poesia. Ela guarda a saudade de Deus e respeita o silêncio, o silêncio diante de uma absoluta presença, inexprimível por palavras.
É neste espírito que, numa noite atormentada, numa espécie de luta entre Javé e Jacó, escrevi:

Sinto em mim um grande vazio
Tão grande, do tamanho de Deus.
Nem o Amazonas que é dos rios o rio
Pode enchê-lo com os afluentes seus.

Tento, intento e de novo tento
Sanar esta chaga que mata.
Quem pode, qual é o portento
Que estanca esta veia ou a ata?

Pode o finito conter o Infinito
Sem ficar louco ou adoecer?
Não pode. Por isso eu grito

Contra esse morrer sem morrer.
Implode o Infinito no finito!
O vazio é Deus no meu ser!

Leonardo Boff
theologus peregrinus et peccator
Petrópolis 14 de dezembro de 2008

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A SITUAÇÃO DA DEFESA DA VIDA

STF retoma julgamento de pesquisas com células tronco quarta-feira 28 de maio 2008.
Texto completo em sdv.@pesquisasedocumentos.com.br. Parte do documento, editado, disponível em yahoo.com.br no e-mail clubebiblico2008@yahoo.com.br senha: palavra
Vale a pena atualizar-se sobre o assunto com textos e documentos das partes envolvidas.